Fanfic Amor Por Contrato

Sinopse:

"Eliza teve que se casar com o filho do dono de uma empresa multimilionária da sua cidade, por obrigação. Quando ela completara 5 anos, seu padrasto a vendeu ao patriarca da família Santana, desde então ela viveu com a fantasia de ter dado uma vida melhor para sua mãe, irmã e padrasto que gastou toda a fortuna da família e ainda colocou a casa em hipoteca. Mas o que Eliza não espera a era começar a gostar do seu amigo de faculdade Lucas. E agora ela terá de fazer uma escolha. Luan Santana sucessor de uma das empresas matrizes de viagens, teve que se casar com uma mulher a qual nem conhecia aos 24 anos, porém o que Luan não esperava era se apaixonar pela mulher que nem olha em seus olhos e que daria muita coisa para fugir de tudo isso. Ainda mais quando o padrasto de Eliza ameaça acabar com tudo voltando para Londrina. Eliza terá de confiar em seu suposto inimigo. E aprenderá que nem sempre os amigos estarão aqui para ajudar"


Capitulo 1

Ajeito meu vestido distraidamente sentada a cama. Não tenho vontade alguma em descer para o jantar, não quero ver o olhar de desprezo do homem que chamo de marido.
Caminho lentamente até a grande janela que fica no meio do quarto onde passo a maior parte dos meus dias. A chuva cai violenta lá fora. O grande jardim da residência dos Santana's agora escuro e frio.
Um leve toque na porta me tira dos devaneios.
- Entre - digo.
Logo vi a silhueta de Bruna no vão da porta.
- Vim ver como está - ela entrou no quarto - Não desceu - apontou para a porta.
Bruna é a pessoa que mais fala comigo além da minha criada. Ela é a irmã do Luan.
- Não queria vê-lo - minha voz falha.
- Luan não é fácil né?
Balancei a cabeça assentindo.
Bruna me olhou de um jeito que parecia compreender tudo o que está acontecendo.
- Você vai ficar bem Eliza?
- Vou sim, obrigado pela preocupação.
Bruna saiu do quarto e eu fui me trocar no banheiro dentro do mesmo. Passei a mão pelo cetim da camisola. Me lembrei do dia em que praticamente fui vendida por meu padrasto, tudo por dinheiro. Minha mãe havia desaparecido um dia antes, nunca mais ouvi falar dela. Apesar de saber que ela havia aceitado me vender a matriarca da família Santana, eu ainda a amo.
Deitei em meu lado na cama, fechando fortemente os olhos na esperança de acordar em um lugar totalmente diferente. Ouço a porta se abrir e fechar, logo depois o espaço na cama ao meu lado é remexido. Cansei de ser a mulher que vive trancada no quarto possivelmente chorando. Se ele quer assim, assim será.
- Luan? - o chamei tentando manter a voz firme.
Não houve resposta e, isso me deu vontade de sufocá-lo com o travesseiro. O chamei novamente, Luan soltou um resmungo antes de responder.
- O que você quer, Eliza?
- Que você pare! Cansei de ser ignorada, ou de fazer perguntas sem respostas, e quando as obtenho, são sempre palavras arrogantes. Cansei de te ver chegar com perfumes diferentes, marcas de batom diferente. Eu cansei Luan! - não sei de onde encontrei forças para dizer aquelas palavras.
Luan soltou uma risada de deboche.
Mas sei que de algum modo ele entendeu o recado. Ele fez a escolha, agora vou aprender como se joga o jogo dele.


Capitulo 2


Senhora, o vestido roxo lhe cai muito bem!
- Obrigado Sony - agradeço a minha criada e amiga - Para falar a verdade, não estou nada animada para esse almoço.
Sony me olha cautelosamente.
- Mesmo que não demonstra, sei que seu marido precisa de ti.
Sony se retirou do quarto e eu me dirigi ao banheiro, admirei por um tempo o vestido de um roxo quase lilás. Um vestido tão rodado que poderia ser um vestido de noiva só que de uma outra cor. Todo rendado. Ganhei esse vestido de presente quando viajei com a Sra Santana para Portugal. Nunca o havia usado.
Me arrumei simplesmente, pondo jóias e outros acessórios e sai do quarto. Levantei o vestido com as mãos e passei pela imensa escadaria marfim chegando ao andar principal. O movimento dos criados é constante, tudo para deixar a sala de jantar uma perfeição. Meu olhar se cruza com o de Sony. Sorrio. Ela retribui.
Me dirijo ao jardim, cumprimentando o mordomo ao passar pela porta.
É bom poder respirar ar puro. Passeio pela grama bem aparada, até chegar ao sul da casa. Uma grande árvore cria uma sombra tão grande quanto ela. Me sento na grama não me importando com folhas que possivelmente se prenderiam a meu vestido. Queria poder ficar aqui, sendo eu mesma, e não ter de ser quem eu não sou.
Minutos depois ouço vozes, os convidados já deviam ter chegado.
Volto para a casa limpando os vestígio de grama.
Vou até as pessoas, portando-me educada e simpática. O Sr e Sra Santana também os cumprimentam alegres e formais. Anny, e seus pais Dorothy e Walle, da Rússia. Anny parece estar em minha faixa de idade, de 19 para 20. Ela parece ansiosa por alguma razão. Tão graciosa quanto a mãe em seu vestido cor marfim. Vejo Luan passar pela porta, me beija e vai receber os hospedes. Ao fim, fica de pé ao meu lado segurando minha mão. Aos olhos de pessoas desconhecidas parecíamos um casal feliz, com diferentes planos para o futuro. Mas não é bem assim, beijo falso, aperto de mão falso. Assim que o almoço já estava a mesa, nos sentamos. O dia começa. Queria poder voltar para o quarto ao ver Luan e Anny trocando olhares e o ver piscando para ela, que retribui ajustando o decote do vestido. Bem na minha frente.


Capitulo 3


O almoço terminou rápido. Não aguentava mais ver Luan e Anny se devorando com os olhos. Mas, como disse que não me importaria com mais nada relacionado a ele. Cumpri. Confesso que fiquei com vontade de afogar os dois na piscina do casarão. Mas quanto menos eu mostrar que ligo, ele vai ter que parar. Ele ainda vai ver que não me merece. E ainda vai me amar. Me retiro da casa vestindo o sobretudo. Well já me espera no carro.
- O museu do centro - digo.
Well dá partida, bem na hora em que vejo Luan me observar da janela do quarto.
Ignoro seu olhar e durante o trajeto inteiro vou pensando no que aconteceu... Enquanto estava mergulhada em pensamentos, Well chega ao local e começa a falar comigo me tirando dos meus devaneios.
- Pronto senhora, chegamos -ele diz abrindo a porta do carro e saio do mesmo, sentindo um pouco de liberdade e falo a Well que quero ficar sozinha.
E assim entro no museu, fico vendo os objetos como se isso fosse me fazer esquecer o que realmente aconteceu naquele almoço, depois de um bom tempo espairecendo e amando aquele lugar eu ia saindo, mas com a minha distração eu acabei esbarrando em alguém e o mesmo me segurou e me olhou por um longo tempo, fiquei um pouco tímida e abaixei a cabeça. E antes mesmo que ele falasse algo um lindo sorriso brotou nos seus lábios perfeitos.


Capitulo 4


Ouço uma batida na porta do quarto, no exato momento em que pensava no sorriso do homem que encontrei no museu. Em quanto foi educado em aceitar minhas desculpas por ter esbarrado nele. No modo como seu olhar parecia simpático e sincero, ao contrário de Luan que nunca me olhou assim.
- Entre! - digo fechando o livro e deixando um dedo para separar a página.
- Eliza Santana? - é Anny, a última pessoa que gostaria de ver, somente perdendo para Luan.
- O que deseja de mim? - pergunto curta e grossa.
Anny fecha a porta e se aproxima da cadeira da escrivaninha a qual estou sentada.
- Só vim te dizer que mesmo que não nós conhecemos direito, eu gostaria de ter sua amizade. Como vou passar um tempo ainda antes de voltar para a Rússia, seria bom ter alguém para conversar.
Por fora eu posso trasparecer uma expressão indecifrável, mas por dentro eu estava pensando: "Está louca? Deve estar quase morrendo para ficar a sós com o meu marido e agora vem dizer que quer ser minha amiga sem a mínima vergonha na cara?" Apenas assenti, pois sei que se possivelmente abrisse a boca, me arrependeria.
Anny seguiu em direção a porta, me olhou e disse:
- Sabe você e seu marido? Então, belo casal.
Piscou para mim e saiu.
Tive vontade de jogar o livro e tudo o que estivesse a meu alcance na porta, e queria impulsivamente que algum a acertasse. Mas, mantive minha classe e postura. Não vai ser uma mulher que se insinua para um homem casado que vai me tirar do controle.
Tentei me concentrar no livro, mas falhei. Toda hora meus pensamentos eram dirigidos ao sorriso perfeito ou em ter tido um encontro com a falsidade em pessoa querendo ser minha amiga.


Capitulo 5


Deito na cama tentando não chorar. Tentando não pensar em como minha vida poderia ter sido diferente. Poderia estar casada com outro, com filhos e possivelmente feliz. Mas por obra do destino e do meu desprezível padrasto, estou casada com um homem que não dá a mínima para mim, tendo que respirar o mesmo ar que a pessoa que deveria estar com meu marido quando sai. Tento impedir as lágrimas de escorrerem, mas não tenho força o suficiente para isso. Luan entra no quarto no exato momento em que não consigo controlá-las.
Me levantei da cama e fui para o banheiro rápido o suficiente para que Luan não me faça perguntas.
Fiquei por ali mesmo, chorando e me olhando no espelho. Cabelos loiros bagunçados, olhos verdes já vermelhos de tanto chorar. Enxáguo meu rosto com a água gelada da pia, respiro e inspiro profundamente. E então já recuperada volto para o quarto e o encontro vazio, assim como o meu coração.
°
" - Ela é perfeita para meu filho - pude ouvir a voz de Amarildo ecoar na sala.
- E será suficiente para pagar a dívida que lhe devo - falou meu padrasto em seguida.
Eu só sabia fitar o chão. Imóvel. Confesso que preferia ficar ali e me casar a passar mais um dia em um mesmo ambiente que meu padrasto.
Amarildo assentiu e quando o meu padrasto estava prestes a ir embora, ele olhou profundamente nos olhos dele e disse:
- Isso não é uma venda. Você não vale o fio do cabelo dela."
°
"- Eliza Nolan você aceita Luan Rafael Domingos Santana como seu legítimo esposo, até que a morte os separe? - perguntou o padre.
“Não” pensei.
- Eu aceito.
E as palavras seguintes foram substituídas pelos meus batimentos ecoando em meus ouvidos.
Luan sela nossos lábios em obediência as palavras do padre.
E foi nesse dia, que eu soube o que era mentir."


°

"- Você é uma menina mal agradecida, come da comida que eu compro, dorme debaixo do meu teto, então vai fazer o que eu mandar - meu padrasto gritou.
Minha mãe somente observava, quieta, não fazia nada, nem me defendia.
- Eu digo o que você faz, ou deixa de fazer.
Ele estava com raiva e bateu forte na mesa.
Já tentei fugir de casa no auge dos meus 16 anos, mas ele ameaçou fazer algo terrível contra minha mãe.
- Eu não vou casar - gritei o mais firme que consegui - Você não manda em mim! Você é um monstro!
E o único barulho que se fez presente foi o da bofetada que levei no rosto. Coloquei a mão onde queimava e não pude deixar de chorar.
- Você apronta, ela paga - apontou para minha mãe imóvel."

Capitulo 6

Acordei quase me camuflando a cama de tanto cansaço. Me viro de lado e vejo que pela primeira vez em 1 ano de casados Luan continua dormindo. Ele ficou acordado comigo até eu pegar no sono, também pela primeira vez em que mostrou algo mais que desprezo por mim. Eu não o julgo. Foi obrigado a se casar com uma desconhecida em seus 24 anos. Mas ele também deveria entender que eu não desejava casar com ele, ainda mais por ter acabado de fazer 18.
Fico o observando dormir por um tempo. Seus traços, o contorno da boca, seus cabelos escuros. Observo a pessoa que aprendi a amar tão perto e tão distante. A pessoa que dorme comigo todos os dias e que não deve nem saber minha idade direito. Mas eu o conheço, eu me apaixonei. Não deveria, sei que não sou correspondida mas eu não mando em meu coração.
Luan abre os olhos e me pega o observando. Ele prende o olhar no meu por um instante. E é nesse momento, somente, que vejo a pessoa a qual me apaixonei. Mas então a realidade volta. Luan levanta sem dizer nada e entra no banheiro ignorando minha presença.
Me dirijo ao closet. Fecho a porta. Procuro um vestido curto e básico, opto por um azul caribenho, todo coberto por uma renda azul cobalto.
Gosto muito de usar esse vestido. O usei no dia em que Marizete resolveu fazer um jantar quando completei 19 anos. Ouço um barulho na porta do banheiro e me retiro do closet calçando a sandália. Sinto o olhar de Luan paralisado em mim quando saio. Logo, ele passa a mão pelo rosto e me pergunta direto:
- Você está bem?
Assinto.
Percebo a roupa de Luan, camisa social branca e justa, calça preta. Percebo também seu cabelo, despenteado, de um modo que o deixou mais apaixonante. Ele não costuma ficar assim. Meu olhar para em seu rosto. E quando ele também me olha, o ar fica tenso. Puxo o ar fortemente, tentando lembrar de como se respira. E então ele sai do quarto. Como se fosse mais um dos rotineiros dias.
Logo depois eu desço.
Vejo que há uma nova pessoa na casa, a pessoa a qual Luan cumprimenta alegre.
E mesmo que extremamente surpresa e confusa, não posso deixar de sorrir ao ver quem é.
O dono do sorriso perfeito. O homem do museu.


Capitulo 7

Não tive tempo de perguntar ou ao menos cumprimentar o novo hóspede.
O Sr Santana o carregou ao escritório para conversarem algo a respeito da viagem que estão pretendendo fazer para o Alaska no fim de semana, para acertarem coisas a respeito de um vinhedo além do patrocínio de um competidor de Mountainboard da região. Mas só de imaginar ter de permanecer no mesmo avião que Anny do Maine ao Alaska já desanima.
Vejo Anny sorrir e morder o lábio ao ver Luan, que retribui e logo depois também se dirije ao escritório.
Tenho vontade de esmurrar os dois ali mesmo, mas isso terá seu tempo.
E eu apenas vou ao meu lugar de sempre, debaixo da imensa árvore no jardim. Mikeias, o mordomo, me faz um elogio e o agradeço sorrindo. Ouço passos atrás de mim mas não me viro para ver quem é, já desconfiando.
- O que quer de mim além do meu marido? - pergunto sentindo minha mão coçar.
- Não entendi - ouço a voz dela atrás de mim.
Me viro e ando em direção a ela, a olhando de cima.
- Me responde uma coisa, tá sem homens no mundo ou você não tem a capacidade de procurar alguém decente para amar?
Anny respira fundo.
- Agora você me responde, com quem seu marido estava quando você saiu? Quem é que fica chorando por aí? Isso é coisa de mulher que está tão desesperada a ponto de forçar um amor que sabe que não tem.
Anny se arrepende do que disse no exato momento em que minha mão vai com força total em sua face.
Seguro a mimada da Anny pelos cabelos a obrigando a me olhar de baixo.
- Sou eu quem vivo sendo “amada” as escondidas? Sou eu que tenho que dormir e acordar sozinha todos os dias? Sou eu que mostro o quanto sou desprezível e, mal amada se agarrando com o marido dos outros e, depois pagando de amiga?
Solto o cabelo de Anny que me olha furiosa, pondo a mão no cabelo onde antes eu puxava sem dó.
Dou três passos em direção a casa, me viro para ela recompondo minha postura.
- Só mais uma coisa, nunca mais ouse falar uma só palavra comigo, ou você vai sair sem esse seu cabelo.
E volto para a casa triunfante.


Capitulo 8


Pude sentir o olhar de Anny sobre mim o tempo todo durante o almoço. Quando eu a olhava, ela balança a faca entre os dedos. Não tenho medo dela. Não tenho medo de uma menina que quase chorou por ter tido o cabelo bagunçado do que pela dor de ter quase ficado careca pelo puxão que dei. Em retribuição a ofensa silenciosa, apertei mais o elástico que prende meu cabelo.
E desviei o olhar.
- Algum problema Srta Stillew? - perguntou Marizete.
- Não, senhora - respondeu sem graça.
Obrigada por isso sogra, pensei.
Pude ver que agora tenho um novo observador. Aquele que apelidei de "homem do museu". O olhei. Ele sorriu e eu retribui. Luan percebeu e me olhou como que querendo uma explicação.
Mas desviei o olhar, não lhe devo satisfação como no momento em que ele decidiu que não devia a mim.
°
- Então Luan é seu marido?
Assenti.
- E seu nome é Lucas Stillew, e é irmão da... Anny.
- Sim.
- Mundo pequeno - disse olhando para o céu.
- Nem fala.
Nos sentamos na mesa do jardim. Luan foi para a gravadora que tem com o pai.
- Não estou a fim de voltar para a Rússia - disse Lucas - Lá não é o meu lugar.
- Por diz isso?
- Por que andei por toda a Rússia procurando um lugar para chamar de... Lar. E até hoje não o encontrei. Meus pais querem que eu tenha uma vida de banqueiro, mas o que eu quero mesmo é viajar pelo mundo. Não viver preso dentro de um banco. As vezes temos que sair de casa para achar o nosso lar.
- Sei como se sente, também me sinto assim em relação ao meu casamento.
- Então por que escolheu isso Eliza?
- Por que não tive escolha. - Respondi.
- Viajaria o mundo se pudesse? - perguntou ele.
- Não pensaria duas vezes.
- Então por que não fazer isso?
Pensei por um tempo.
- Por que por mais infeliz que eu esteja, não posso deixá-lo.
- Você o ama? - questionou direto.
Fixo o olhar em minhas pernas sem cobertura alguma.
- Amo - digo sem olhá-lo.
Apesar de tudo, eu o amo de verdade.
- As vezes temos que fazer sacrifícios por quem amamos, Eliza.
Lucas levanta, beija minha mão, e volta para a casa.
Me deixando sozinha pensando no que eu realmente quero para minha vida.


Capitulo 9


- Por que não gosta de mim? - perguntei a Luan, fitando a escuridão acima da minha cabeça.
Ele levou um tempo para responder.
- Nunca disse que não gostava.
- Mas também nunca disse nem demonstrou que gosta.
O silêncio reinou no quarto por um instante.
- Nunca quis isso.
- E você acha que eu quis? - perguntei - Sou tão vítima quanto você. Fui tão obrigada quanto você, agora não vem querer me julgar.
- Você estava falando ontem a noite.
Sinto minha respiração falhar.
- O que eu disse? - perguntei direta.
- Que me amava.
Droga!
Permaneci quieta, não sei o que dizer diante de uma situação dessa.
- Me desculpa - sussurra.
Luan está me pedindo desculpas?
- Mas é assim que eu sou e você terá de aceitar.
Respirei fundo.
- Eu não amo você - Luan disse antes de virar para o lado e dormir.
Admito que essas palavras me doeram mais que uma facada no coração.

Na manhã seguinte, Lucas ergueu o braço para eu segurar de modo a mostrar o quanto é cavaleiro.
Ficamos um tempo andando pelo jardim. Tive um breve vislumbre de Anny na janela do meu quarto. Mas acho que é paranóia minha.
- Está tudo bem? - perguntou Lucas ao me ver parar de andar.
- Sim - sorri fraco tentando mostrar que estava tudo sobre controle.
- Senhores - Sony se aproxima com uma bandeja contendo diversos tipos de frutas e outros alimentos. Me lembrei do quanto Sony foi maravilhosa comigo quando cheguei aqui, o quanto me ajudou a se adaptar.
- Obrigado senhorita - agradeceu Lucas.
Sorri para ela.
Passamos a tarde ali no jardim longe do tumulto e das intrigas do mundo.
°
- Partiremos amanhã bem cedo - Luan me avisou. Não sei o que houve mas Luan passou o dia todo com a cara emburrada.
A noite Sony me ajudou com as malas. Serão duas semanas longe de casa e tão presente no frio do Alaska. Peguei boa parte dos casacos e sobretudo que tenho apesar de ser uma grande quantidade. A única coisa boa nessa viagem é que poderei sair de uma vez dessa casa e pelo menos não ficarei sozinha, terei a companhia de Lucas. E Anny que procure seu rumo, que perto de mim ela não fica.
A noite chegou rapidamente e eu deitei ao lado de Luan, temendo a viajem que irá arrasar minha vida ou a mudar de uma vez por todas.


Capitulo 10


Nove horas de vôo. Sobrevoamos Ottawa, Ontário, Manitoba, Alberta, Território de Yukon, até em fim chegar ao nosso destino em Fairbanks.
Depois de um bom tempo longe do solo confesso que desenvolvi uma espécie de fobia de altura.
Luan, Lucas e Amarildo nem desejaram descansar antes de irem em direção ao vinhedo.
Fiquei observando a vista do lado de fora, reparo que há uma grande massa de nuvem escura acima da minha cabeça, indo em direção a fazenda e as outras fazendas vizinhas. O vento já vem bem frio ou já é o clima habitual do Alaska.
Volto para a casa a fim de guardar as coisas que eu trouxe nas malas. O armário não é tão extenso quanto o meu closet no Maine mas deu para todas as minhas roupas e as do Luan. Abro a janela com a intenção de iluminar o quarto.
Passei toda a tarde descobrindo lugares na casa e conversando com Marizete. Anny pela graça de Deus não falou nem chegou perto de mim.
O sol já havia sumido no horizonte quando voltei para o quarto. A janela aberta batia contra a parede carregando vento e chuva para dentro do quarto.
- Deixe-me ajudar senhora - uma criada entra no quarto, vendo minha dificuldade.
Ela se retirou. Passei as mãos pela calça a fim de secar a água da chuva. Afastei as cortinas e olhei pelo vidro da janela, todo o céu azul de antes fora substituído por um cinza nebuloso e sombrio.
A noite os outros chegaram. Estava tudo certo com a compra do vinhedo. Luan se trancou no banheiro quando fui deitar e até eu pegar no sono os únicos sons que se fizeram presente. "Creio já estar no décimo sono quando Luan entrou no quarto.
- Já disse que te amo?
Estranho ao ouvi-lo dizer isso. Não sei o que aconteceu com minha visão, mas não consigo visualizar tudo com clareza.
- Eu te amo de verdade.
E então me beija. Rápido e desesperadamente, me prensando contra a cama. Afasto as cobertas. Passo a mão pelos seus cabelos, imaginando se um dia cheguei a pensar nesse momento. Se sentiria sua pele contra a minha como estou sentindo agora. Sua respiração sobre mim e sua boca em contato com a minha.
Abro forte os olhos ao sentir uma dor excruciante na barriga na linha do diafragma.

Tento respirar forte, mas a respiração e a vida me escapa. Agonizo por ar. Procuro Luan no quarto mas não o acho. Aperto o local da dor e sinto algo melado em minha mão. Sangue. Só tive tempo de elevar os olhos e enxergar Anny me olhando, rindo de mim. E então meu corpo incendeia e meu coração já não aguente mais a dor e o peso extremo do mundo em cima de mim". Tateio rápido e forte a cama e meu corpo procurando sinais de sangue. Nada. Luan dorme profundamente ao meu lado. Tento me acalmar diante do coração acelerado ao ter presenciado um pesadelo tão real.
Bebo a água que se encontra no criado mudo, tentando aplacar a vontade de chorar.

Capitulo 11

Fumaça, chuva, ventania.
- Nós precisamos correr Eliza! - ouvi Luan gritar.
O que está acontecendo? Estou sonhando?
Sinto alguém me levantar, segurando firme em meus braços.
Então consigo ver.
A casa está desabando. Nada está em seu lugar. Roupas reviradas, paredes arrancadas.
- O que está acontecendo? - grito desesperada enquanto Luan me puxa escada abaixo.
- Tornado - grita - Temos que correr.
Me lembro da nuvem escura se formando no céu.
Ouço um grito de mulher a pequena distância. É Anny - os pais de Luan não estão na casa - está ferida. Vejo Lucas que a levanta do chão com facilidade.
- Vão! Vão! - grita.
Meus olhos embaçam, estou confusa, muita confusa.
Corremos. Luan me puxa segurando minha mão. Lucas vem logo atrás com Anny. Enfim saímos da casa caindo aos pedaços. A noite obscurece o pior dos pesadelos. Porque fui fazer essa viagem?
Não olho para trás, blocos de gelos e neve voando. Minha mente está uma confusão. Tudo isso é uma tremenda confusão.
- Corre - Luan grita desesperado para Lucas, mas estávamos distantes demais. Estávamos a caminho da floresta. A casa fora destruída. Tudo pelos ares. Falta tão pouco para chegar a floresta, tão pouco. Mas então tudo muda. Não sei de onde veio aquele helicóptero que explode a distância, só sei que estilhaços dele jogaram Anny e Lucas tão longe e tão alto. Corri em direção a ele.
- Não! - Luan insiste em me segurar.
Eu preciso ir até lá. Preciso ajudar.
- Lucas! - grito em meio as lágrimas.
Minha visão está branca pela neve.
Luan me segura forte contra ele.
E por um descuido, consigo escapar de seus braços.
Corro o mais rápido que posso na direção de onde antes estava Lucas e Anny.
De frente para imenso tornado que ameaça tirar minha vida. Meu Deus por favor não quero morrer. Que tudo isso seja um grande pesadelo, que seja tudo imaginação. Mas não posso deixar de socorrer a pessoa que desde o começo se tornou tão amigo.
Quando achei que conseguiria pelo menos andar na ventania, meu destino é selado.
Luan segura minha mão no exato momento em que o gelo abaixo dos meus pés quebra.
Criando uma imensa poça debaixo de mim. E eu caio com tudo na água fria, sendo sustentada apenas pelas mais de Luan.


Capitulo 12


- Não me solta por favor! - disse com a voz falhando.
Meus dentes estão rangendo, meu corpo anestesiado por conta do frio. Precisamos sair daqui. A ventania é tão grande.
Luan me puxa, não posso ajudá-lo tentando subir por que não tenho mais força e controle sobre os meus membros.
Se eu morresse agora, morreria satisfeita por saber que nem que seja por um instante, mas que Luan arriscou a vida por mim.
Luan pode não ter forças para me segurar, posso morrer do mesmo jeito que cresci e vivi, fria. E Luan poderá casar com a mulher que irá amar, terá seus filhos e quem sabe se esquecer de que um dia foi obrigado a se casar com a menina que só queria ser feliz. Ou esse gelo pode terminar de quebrar e matar nós dois.
Sou puxada para cima, vou de encontro ao gelo, mas logo sou levantada do chão.
Estou congelando. Estou morrendo. Posso sentir meu sangue quente implorar por um ambiente diferente assim como meus pulmões imploram por ar quente. Estou encharcada. Poderia chorar agora mas as lágrimas não conseguem seguir seu caminho para fora de mim. Começo a pensar nas coisas que poderia ter feito e nas que deixei de fazer.
Estou tremendo.
- Shh - Luan sussurra.
Sinto seus braços firmes ao redor de mim, me carregando. Ele está se importando comigo, e isso é raro. Só a quase morte para fazê-lo me enxergar.
Posso ver em que lugar estamos, na floresta. A luz do dia se infiltra por entre os galhos das árvores, junto com a neve.
Não quero morrer, não de frio.
Luan continua adentrando a floresta, mais e mais. Como se soubesse o destino.
Ele não diz nada, mas posso sentir que está tão abalado quando eu.
- Eu não quero morrer - sussurro percebendo que meus lábios estão ressecados.
- Não vamos morrer.
E então quanto mais a noite se aproximava eu me deixava levar para sono ou para o descanso eterno. Sem nem saber onde vamos chegar.


Capitulo 13


• POV LUAN •
Parei por um instante, Eliza adormeceu. Ela está tão gelada. A aperto mais em meus braços, não posso deixá-la morrer de frio. Ela não pode morrer. Mesmo que eu não gosto de conversar com ela ou então quando vem com aquele papo de amor, admito que ela é a única pessoa que consegue me entender. Mas ainda assim não estou pronto para amá-la muito menos chamá-la de minha esposa.
Sento no chão encostado a uma árvore e apoio Eliza ao meu lado, mantendo um braço ao redor dela para que não venha a perder o equilíbrio.
A observo por um tempo, tão frágil. Me lembro de quando dormindo disse que me amava. Foi a única pessoa que disse - eu te amo - com tanta sinceridade para mim. Não quero amá-la. Não a pessoa que foi o instrumento de minha prisão. Costumava ser livre, ter minhas próprias escolhas. Mas desde que casei com ela minha vida mudou.
Solto o ar forte, lembrando do que acontecera em pouco tempo. O tornado deveria ter saído da nossa rota. Ainda ouço seu barulho e as árvores agitadas. Não deveria voltar. O caos se instalou, o gelo criou um enorme rio onde antes estava a casa. Mas precisamos comer algo. Encosto Eliza na árvore onde a terra não está coberta pelo gelo e a cubro melhor com o casaco, as altas árvores impedem um pouco a queda da neve.
Sei que não posso deixá-la aqui desamparada mas se eu não voltar e tentar procurar comida e roupa, iremos morrer. Deve ter alguém ou alguma casa nesse fim de mundo.
Olho pela última vez para seu rosto, logo depois corro por onde viemos, pretendo não demorar.
Preciso voltar logo, antes que a noite chegue e torne esse pesadelo em uma corrida por sobrevivência no mais profundo breu.


Capitulo 14


•ELIZA•
Por um momento consigo ficar no mais profundo desespero. Não faço a mínima ideia de onde estou. Estou sozinha. Luan me abandonou aqui nesse frio. O sol está se pondo, sinto minha barriga doer. Estou com tanta fome. Me infiltro no mato a procura de Luan, tentando ter uma breve noção de onde ele pode ter ido. Minhas roupas continuam um tanto encharcadas.
Sigo por entre as árvores, em algum lugar haverá de ter uma clareira ou algum riacho, mesmo que congelado.
Passo a mão pelos braços na esperança de me esquentar.
Um excesso de tosse me invade quando tento respirar, está cada vez mais difícil. Preciso encontrar um lugar seguro.
Passo a mão pelo cabelo sentindo os pequenos flocos de neve se impregnarem em mim. Eles são minhas únicas companhias. Ouço de vez em quando um barulho por dentro da mata, o que só me apavora mais ainda. Aumento a velocidade dos passos, na esperança de somente chegar ao casarão, deitar em minha macia cama e dormir por tanto tempo. Mas eu sei que não há mas nenhum casarão. Só queria abraçar Sony e agradecê-la por sua amizade. Só quero sair daqui e voltar para minha vida por mais imperfeita que ela seja. Me pego pensando na vida, pensando em como vivo reclamando do meu casamento, mas é que eu não parei para pensar que neste momento uma criança morre de fome. Nesse momento um inocente está sendo morto. Então por mais difícil e tumultuada que esteja minha vida só tenho a agradecer pela oportunidade e privilégio de poder respirar.
Faço uma oração silenciosa, já não sei para onde ir, nem o que fazer, só sei andar e andar e andar.
Nunca pensei que precisaria tanto de Luan, nunca pensei que ele me deixaria sozinha, me abandonaria na primeira oportunidade. Onde será que Lucas está? Será que sobreviveu aos escombros do helicóptero? Queria tanto chegar lá, poder saber se está bem.
De tanto andar, paro em uma pequena campina, coberta por uma fina camada de neve. Sento escorada em uma árvore. Olho em volta temendo o momento em que havia pego no sono.
Não consigo nem chorar, nem devo, estou com fome, sede e estou congelando.
Mas isso seria quase de menos quando paro realmente para pensar em algo óbvio.
Estou totalmente perdida.


Capitulo 15


Me levantei decidida a encontrar algo além de árvores aqui.
- Calma Eliza, respira fundo - disse a mim mesma em voz alta.
Caminhei refazendo todo o caminho que me lembrei ter feito, meu estômago dói ruidosamente.
Parei em meio a escuridão ao ver algo comestível que em instantes forrou meu estômago. Não era um banquete mas serviria para algumas horas.
Tudo o que fiz foi tentar não me desesperar mais do que de fato admito estar. Cada novo passo que eu dava era um som diferente vindo das sombras do Alasca Selvagem. Por fim a exaustão e a falta de visibilidade me fizeram parar. Minhas roupas continuavam em partes molhadas, o clima aqui não ajudava a secá-las rapidamente. Ainda mais pela calça e o sobretudo com tecido muito grosso e pesado. Subi em um tronco baixo em uma árvore que protestava sob meu peso, cai algumas vezes mas consegui me manter equilibrada, pelo menos estarei meramente protegida pelas horas seguintes até o amanhecer.
°
•POV LUAN•
- Eliza! - grito.
O pânico tomando conta de mim.
Para onde ela foi? Me desespero. Ela deve estar pensando que a deixei sozinha. O que de fato é verdade, mas não pensei que ela fosse levantar e sair andando floresta adentro. Corro pela floresta, seguindo em frente. Lembro do sufoco que passei na casa, as paredes a ponto de desabarem em cima de mim, o lago tremendamente gelado ainda não havia levado a casa, mas foi muito difícil contorná-la. O máximo que consegui foi uma mochila com um cobertor fino e alimentos enlatados. Tentei procurar algo para comunicação mas fica tudo no segundo andar, e as escadas estão totalmente destruídas, não há outro jeito. Ou então andar mais de 9 km até a cidade visinha. E não saio do Alaska muito menos da floresta sem Eliza.
A culpa é toda minha. Devia ter esperado ela acordar. Nem devia ter sequer pensado em viajar para o Alasca.
Em meio a escuridão da noite tenho que forçar a vista para conseguir enxergar e mesmo assim não é o suficiente. Não vou parar para comer, nesse momento Eliza deve estar morta de fome e de frio. Preciso seguir em frente. Empurro as plantas que atrapalham meu caminho, com o braço.


Uma hora ou outra paro e olho em volta tentando pensar se ela teria virado em algum outro lugar. Respiro fundo e sigo. Ouço um barulho na mata a esquerda e minha mão rapidamente vai para a lateral da mochila onde está depositado a faca, vai saber o que a noite pode trazer. É só um coelho.
Sinto meus olhos pesarem, a neve cai espessa. Me lembro de não ter visto Lucas nem Anny pelos arredores da casa, me lembro de tê-los chamado e não ter recebido resposta alguma. E ainda de sentir o pânico de não ter pista alguma de onde meus pais possam ter ido.
Escuto barulhos nas copas das árvores e presencio uma chuva de folhas, algumas delas grudando em minha roupa.
Seguro firme na mão a caixinha de fósforo que consegui recuperar mas, sei que todas as minhas tentativas de acender uma fogueira falhariam devido a neve. A fumaça chamaria a atenção de Eliza mas o clima do Alaska não ajuda em nada.

Não reparei a hora que peguei no sono em meio aos pensamentos, só sei que quando abri os olhos a luz do sol se infiltrava por entre os galhos.
Me levantei vagarosamente e comi uma coisa rápida, voltei a olhar em volta a procura de Eliza. Andei adiante. Onde está essa mulher meu Deus?

Capitulo 16


• POV ELIZA•
Salto do galho e fecho os olhos por um momento tentando pegar um pouco do sol da manhã. Um farfalhar de folhas a uma pequena distância me chama atenção. Ando até aquela direção, me seguro em uma árvore para manter o equilíbrio perdido.
Sou levantada do chão ao ser surpreendida por Luan.
- Eliza - me abraça forte para logo me soltar rispidamente no chão - Sua tola.
Tive ajuda dele para me levantar mas pude sentir seu olhar furioso.
- O que você acha que está fazendo? Passeando pela cidade? - continuou me repreendendo.
Suspirei disfarçando um pequeno sorriso, nunca pensei que fosse difícil ficar longe dele.
°
" - O Sr Santana é um bom homem senhorita, você verá - disse Sony não perdendo o hábito de me chamar de senhorita - Ele só precisa de um tempo para se acostumar a vida de casado - continuou, organizando meus vestidos por cor no closet - Uma hora ele vai ter que aceitar o destino.
Assinto mesmo sabendo que ela não veria.
- É.
- Agora é só eu também me acostumar a essa vida, não vai ser fácil Sony - deito na cama com os pés ainda no chão.
- Será que tudo vai melhorar? - pergunto depois de um tempo em silêncio no quarto. A brisa matinal entra pela janela aberta do quarto. E eu respiro fundo.
- Claro que vai, você merece. Você vai conseguir superar tudo isso.
Dou um sorriso fraco.
- Assim espero."
A memória faz meu coração doer.
- O que acha que aconteceu com todos? - sussurro.
- Não sei.
Essa foi a primeira troca de palavras desde que Luan me encontrou. Não voltarei a fazer perguntas, não posso. Aquele helicóptero não pode ter simplesmente aparecido do nada. Provavelmente eram os pais de Luan.
Minha respiração falha e meu nariz arde por conta do frio. Passo a mão pelo rosto.
Luan me encara, vejo um mínimo de preocupação no seu olhar. E mesmo que tenha pensado na hipótese de ter raiva dele, eu o amo e estou feliz em vê-lo. Ele é meu porto seguro mesmo que eu seja mais uma vítima de naufrágio. Passei tanto tempo ao lado dele, que aos poucos a culpa foi sumindo. Não poderia viver assim para sempre, poderia?

A noite chegou em um instante, mal conseguimos progresso pois tive que parar por conta da dormência em minhas pernas e mãos.
Me encosto na árvore forçando-me a continuar respirando. Mas aos poucos essa simples ação se torna difícil. Durmo ao lado de Luan próximo a árvore. Não vi ele fechar os olhos uma só vez. Era o único jeito de me aquecer, além do fino cobertor. Luan estava com o braço ao redor dos meus ombros, eu não me lembro de ter me aproximado. E ele está quente, mesmo nesse caos gélido. Ele é o próprio sol nessa noite fria.
Dormir nesse chão não é nada confortável mas pelo menos ainda estou viva. E consegui ter forças para me alimentar. Pronta? - pergunta Luan.
Não consigo responder, meu corpo todo está em um frenesi de tremor. Cada vez que eu inspiro é uma dificuldade, como se meus pulmões reduzissem seus tamanhos em 10. Mal consigo me mexer, sinto cãibra em todo o meu corpo.
Em poucos segundos sou carregada do chão. E o vento frio tira todo o cabelo do meu rosto.
- Eliza! - escuto ele me chamar, sua voz cada vez mais distante.
Uma combustão de memórias me levam ao mundo da inconsciência em segundos.
- Eliza fala comigo! - a voz de Luan se torna cada vez mais distante.

Capitulo 17


"Tenho a visão da minha mãe cozinhando algo no fogão. Me lembro dessa época, eu devia ter dezesseis anos. Minha mãe mexia na panela enquanto a música preferida dela tocava e ela cantarolava. De vez em quando, olhava para mim e sorria vagarosamente.
"Love hurts, Love scars, Love wounds' and marks" - ela cantou.
(O amor fere, o amor deixa cicatrizes, o amor machuca e marca.)
Minha mãe secou as mãos em um pano e sentou em uma cadeira ao meu lado, segurou uma das minhas mãos e me olhou nos olhos.
- Minha Liz - ela acariciou meus cabelos - lembre-se que tudo o que eu faço e fizer é por você.
Any heart not tough or strong enoug. To take a lot of pain, take a lot of pain.
(Qualquer coração que não é resistente ou forte o suficiente para receber muita dor, receber muita dor...)
- Você promete não olhar para trás? - ela perguntou, me vendo assentir mesmo sem entender - Não irei pedir para me perdoar, mas não esqueça que eu a amo.
Ela enxugou com as costas da mão uma lágrima que insistiu em cair e olhou para baixo.
Love is like a cloud, it holds a lot of rain, Love hurts.
(O amor é como uma nuvem, contém muita chuva, o amor fere...)
- Mãe? - chamei - Por que está dizendo isso?
Ela levantou e voltou a atenção a panela.
- Por que as vezes temos que fazer sacrifícios por quem amamos. As vezes machuca, as vezes não tem perdão - ela me olhou com os olhos novamente marejados - Amar dói minha filha, nem sempre fazemos as escolhas que realmente queremos. Eu faço as escolhas que te faz bem, em prol da sua felicidade."
Abro os olhos vendo a neve cair, Luan ainda está andando comigo nos braços. Logo volto a fechar os olhos.


Capitulo 18


"Me lembro do tapa no rosto que levei do meu padrasto quando protestei me casar. Ele disse que daquele dia em diante tudo que eu fizesse quem pagaria era minha mãe. Após me bater meu padrasto foi para a rua batendo forte a porta. Minha mãe mesmo em choque correu para me ver, pude perceber que ela tentava não chorar.
Ela caminhou até a geladeira e pegou uma compressa de gelo, depositando em meu rosto afetado.
Ela me abraçou lentamente antes de sussurrar um pedido de perdão.
Naquela noite, eu fiquei todo o tempo no quarto. Minha cabeça latejava e mal conseguia pensar direito. As palavras do meu padrasto repercutia em minha mente: Você apronta, ela paga.
Deitada na cama eu escutava o som etéreo da briga deles na sala. Eu já não agüentava mais isso. Peguei uma mochila que eu guardava debaixo da cama e coloquei todos os meus pertences nela. Coloquei um casaco e vi de vislumbre a foto que eu deixava em cima do criado mudo. Eu, minha mãe e minha irmã Nadyne, felizes em um parque perto de casa. Nadyne é minha irmã mais velha, ela foi igualmente prometida a um casamento indesejado, há uns meses atrás. Desde então não a vi novamente.
Peguei a foto e a olhei pela ultima vez antes de pular da janela. Lembrarei da minha mãe sempre assim, sorrindo. Meu tombo foi um leve farfalhar de folhas. Corri o mais rápido que pude me distanciando da casa, aos poucos a preocupação foi tomando conta de tudo. Estou sozinha na rua e de madrugada, meu dinheiro escasso mal dá para uma semana. Estava deitada em um banco, numa praça distante de casa. Acordei aos gritos, meu padrasto me achara e me carregara a força de volta para casa. Eu gritava aos quatro cantos mas ele bateu minha cabeça em algo e me colocou inconsciente dentro de um carro. Quando acordei em minha casa, não havia sinal algum da minha mãe. Nunca mais a vi, muito menos ouvi falar dela. Há três anos venho carregando essa saudade e preocupação insuportável."


Capitulo 19


Abri meus olhos com um pouco de dificuldade. Me vi em uma imensidão branca.
- Liz - alguém chama.
Tentei procurar pela voz porém minha visão ficou turva, me impedindo de enxergar claramente.
- Liz...
A voz voltou a falar, parecendo distante e com eco. Alguém segura minha mão, talvez a mesma pessoa que me chama.
- Sei que pode me ouvir.
Dessa vez eu reconheci a voz.
Tentei puxar o ar fortemente, o que não me fez bem. Posso claramente perceber que estou deitada, mas minha cabeça está girando.
Cadê Luan? Cadê a floresta?
Meu coração está grande demais para meu peito. Estou sufocando.
Poderia um grito ter saído da minha garganta. Ou eu já estou louca. Mas em um instante de confusão, tudo normalizou e eu cai novamente no sono.
°
Dessa vez ao acordar, não fui recepcionada com a luz novamente. Mas sim com uma confortável escuridão. Aos poucos consegui enxergar melhor, mesmo que não totalmente.
- Eliza, - ouço um barulho, talvez alguém se movendo rápido demais - você pode me escutar?
Seu rosto entrou em meu campo de visão. Nadyne. A sombra da noite obscurecendo seu rosto por um instante. Queria poder abraçá-la. Queria poder não soltá-la nunca mais. Faz tanto tempo que eu não a vejo, cinco anos.
- Você está grande, está tão diferente - ela passou o polegar levemente por meu rosto enquanto as lágrimas escorriam por seu rosto - Eu senti tanto sua falta. Eu vim correndo quando soube o que havia acontecido.
Queria poder dizer que também sinto sua falta.
Nadyne parou de falar e arrastou uma cadeira para perto de mim. Reparei no ambiente, estou em um quarto de hospital. Uma tela mostra meus batimentos cardíacos, cateter nasal e oximetria. Me lembro de quando a mãe de Luan teve insuficiência respiratória, ela ficou um tempo usando o mesmo.
- Você teve uma hipotermia grave e anemia - ela voltou a dizer e suspirou em seguida, pude ver que se segurava para não voltar a chorar. Eu apenas a observava - Seu marido encontrou ajuda e você só acordou agora. Faz exatamente uma semana que você não acorda.
Tudo o que pude fazer foi chorar silenciosamente. Em minha cabeça parecia ter se passado apenas algumas horas.
- Não chora - diz fazendo o possível para enxugar minhas lágrimas.


Capitulo 20


Passei boa parte da noite acordada, por mais que quando o sol clareou o quarto eu estava dormindo novamente. Já me sentia um pouco melhor, minha boca não estava tão seca e os calafrios se foram.
- Oi - Luan disse ao me ver de olhos abertos - É bom te ver acordada.
Ele segurou levemente uma das minhas mãos por mais relutante que estivesse.
- Lucas... - sussurrei quase inaudível. Mas sei que ele escutou.
Pude ver ele me fitando com os olhos quase em chamas porém respirou fundo.
- Lucas está bem - disse - Esta com Anny agora, ele esteve aqui com você a maior parte dos dias mas você estava desacordada.
Mais tarde uma enfermeira entrou no quarto trazendo meu desjejum.
Luan riu de mim quando fiz uma careta diante da comida sem sal. É bom vê-lo sorrir de novo, faz tempo que isso não acontece.
- Onde estamos? - perguntei bebendo um gole do suco.
- No Maine, bem perto de casa - ele disse e se recostou na cadeira - em breve voltaremos.
Casa. Como eu queria ir para casa agora. Ver Sony, talvez ver Bruna também, já que ela viajou há um bom tempo.
Ouço uma batida na porta e logo meu olhar se encontra com o de Lucas. Ele parece não dormir há dias e suspira ao olhar para Luan.
- Ela não pode receber muitas visitas - Luan disse encarando Lucas.
- Tudo bem - sussurrei - eu quero vê-lo.
Luan apertou fraco minha mão e saiu do quarto sem olhar para o novo visitante.
- Eliza - Lucas disse sentando na cadeira onde antes Luan estava.
- Lucas - disse de volta.
- Como você se sente?
- Bem, na medida do possível, não me sinto tonta nem enjoada.
- Isso é bom - disse.
Ele sorriu fraco para mim.
- Como está Anny?
Ele passou a mão pelos cabelos.
- Melhorando. Quebrou uma das pernas e teve uma hemorragia leve.
- Você sabe onde estão os pais de Luan? - perguntei voltando a deitar.
- Lá fora - Lucas disse - Não estavam naquele helicóptero afinal, - estavam em outro lugar perto do Alasca - eles o mandaram para nós buscar quando souberam do acontecido, mas você lembra o que ocorreu.
Assenti....


Capitulo 21


Duas semanas haviam se passado desde o dia em que finalmente saí do hospital. Eu já estava em casa e recuperada. Somente tomando cuidados com a anemia.
- Sua irmã voltará a visitá-la depois de amanhã senhora - Sony disse.
Assenti com o olhar perdido nas roupas corretamente organizadas no closet. Optei por uma calça social justa e bege, uma blusa simples de cetim da mesma cor. Mas a fundo no closet procurei pelo salto de couro beirando ao dourado e voltei para o quarto.
Lucas me convidou para ir a uma exposição de arte com ele e por conta da breve viagem a trabalho de Luan acabei ficando um tanto solitária nessa casa.
Tomei um banho rápido e me vesti, penteei os cabelos, passei o perfume e um batom nude e estava pronta.
- Até mais Sony - disse recebendo um sorriso dela e saindo do quarto logo em seguida.
- Pronta? - Lucas perguntou me ajudando a descer as escadas.
- Sim - disse.
Well nos deixou em frente ao evento e voltou para casa. A entrada estava lotada assim como o restante do ambiente.
- Vem, quero que conheça uma pessoa - Lucas disse segurando minha mão e me arrastando por entre as pessoas até a ampla escada.
Perto de uma pintura do universo estava uma ruiva olhando tranqüilamente pela janela do segundo andar. Ela sorriu amistosa ao nós ver.
- Então você é a famosa Eliza? - perguntou me cumprimentando.
Assenti sorrindo para ela. Lucas adotou um sorriso bobo no rosto.
- Prazer em conhecê-la, Lucas fala bastante de você - voltou a dizer.
- Lucas! - um homem chegou dizer por trás de nós arrastando Lucas para longe.
- Já voltou - disse para mim - Cuida dela Francine.
A mulher a minha frente que agora tem um nome, piscou para ele e sussurrou um deixa comigo.
- Meu irmão é feliz por conhecê-la, posso ver isso nos olhos dele - Francine disse me olhando nos olhos.
- Lucas é seu irmão? - perguntei ainda sem acreditar.
- Eu sei não pareço nada com ele, não é mesmo? - ela riu - Mas sim, ele é meu irmão por parte de pai. Não quis ir com a família para a Rússia por não ser totalmente recepcionada pela matriarca, entende? E toda a minha vida está aqui no Maine.
- Sei como é.


Capitulo 22


Busquei Lucas com o olhar e o encontrei entre um grupo de homens conversando animadamente.
- Ele me mataria por dizer isso, mas ele te considera muito. Só tem medo de admitir.... - ela fez uma pausa - que precisa de você. Eu amo ver esse sorriso no rosto dele.
Sua conversa e movimentos parecia quase em câmera lenta. Sua risada sobressaindo as vozes. Tudo seria tão fácil se fosse com ele que eu estivesse casada. Lucas é tão bom comigo, ele me entende.
- Eu tenho medo dele sair magoado nessa história - Francine disse - Não suporto a idéia de vê-lo decepcionado. Eu sei que você é casada.
Ela recebeu minha atenção.
- Só tenho a te pedir que não dê falsas esperanças ao meu irmão, por favor - continuou - o defeito dele é se apegar nas pessoas e depois ter que partir.
- Eu entendo - disse - ele é importante para mim também.
Pessoas e mais pessoas circulavam a nossa volta, deslumbradas com os quadros.
- Eu soube o que te aconteceu no Alasca, você está bem?
- Estou sim - sorri - obrigado por perguntar. Foi terrível lá, porém deu tudo certo.
Lucas se aproxima de nós duas e põe a mão em meu ombro.
- Conheceu minha irmã? - perguntou e eu assenti - Tenha cuidado, ela as vezes fala mais do que deve.
Francine riu e empurrou de leve o ombro de Lucas.
- Vamos Liz - ele me puxou - Vamos comer algo.
Me despedi de Francine e me deixei ser levada por Lucas.
- Se importa de irmos a pé? - perguntou quando já estávamos fora.
- Não, é bom respirar ar puro.
Durante nosso percurso, fiquei pensando no quanto Francine é diferente de Anny, ela é toda gentil e agradável, já Anny.... É totalmente o contrário da irmã. E Lucas, tenho medo de decepcioná-lo. Por mais que eu ame Luan, não posso deixar Lucas sair da minha vida tão fácil assim. Ainda mais machucando ele, não é minha intenção dar falsas esperanças e fazê-lo achar que não tenho sentimentos, que tenho um coração de gelo. Porém a cada dia que passa eu consigo ficar mais confusa. Se eu escolher Lucas, teria que quebrar o contrato e me separar de Luan, e como ele ficaria? Como eu ficaria? Se eu escolher Luan, magoaria Lucas e nunca me sentiria completa o suficiente para seguir em frente e em paz.

Capitulo 23


- Você escutou o que eu disse? - Lucas perguntou e riu ao ver minha confusão.
- Desculpa, você estava falando comigo?
Ele voltou a rir.
- Gastei mais de mil palavras falando contigo e você não ouviu? - perguntou para si mesmo com um sorriso bobo.
- Do que você estava falando?
- Estava falando do quanto seu marido é um babaca em não ver a mulher incrível que tem ao seu lado.
Suspirei. Porque Lucas, porque você tem que acabar com o clima bom que estava?
- Ele teve que se casar com uma pessoa que não conhecia, Lucas, qualquer um ficaria abalado.
Lucas parou de andar e olhou em meus olhos. Segurou meu queixo com o polegar me obrigando a olhá-lo.
- Você teve que se casar com um homem desconhecido, pelo que você me conta não tem sido lá a coisa mais legal. Você teve que se adaptar ao ambiente dele e ainda assim não se tornou egoísta e prepotente.
Posso sentir sua respiração rápida.
- O que eu faço? - perguntei com a voz embargada.
- Ficar calma.
Há 1 ano estou casada com Luan, eu simplesmente aprendi a amá-lo independentemente do jeito que ele é. Ele as vezes é minha rara companhia nas tardes e todas as noites. Eu sei que ele se preocupou comigo no Alasca e se preocuparia se algo assim voltasse a acontecer. Luan não é o monstro que todos pensam que é por ser frio comigo. Ele se importa, nem que seja no fundo.
Mais alguns metros e chegamos ao restaurante. Lucas permaneceu ao meu lado. Agradeço por não estar sozinha.
Sentamos em uma mesa afastada e eu fiquei observando o fluxo de pessoas conversando e caminhando. Evitei o olhar de Lucas, sei que ele me revelaria tudo o que preciso ouvir, mas eu não sei se é isso o que eu realmente desejo.
- Eu não posso esconder meus sentimentos, você sabe que gosto bem mais de você - ele suspirou - Se eu pudesse, eu voltaria no tempo, evitaria tudo isso e tentaria te conhecer antes dele e fazer o possível para acabar com esse contrato idiota. Mas nem sempre podemos fazer tudo.
Lucas encarou o cardápio por alguns segundos, nossos pratos já tinham sido escolhidos, só estávamos aguardando.


- Em poucos dias terei de voltar para a Rússia com minha família. Eu não quero deixá-la sozinha - ele passou a mão pelos cabelos loiros e voltou a me olhar - Preciso me afastar antes que as coisas saiam do controle, eu estou apaixonado por você e preciso acreditar que isso é somente fantasia da minha cabeça. Mas eu não posso ir sem saber se ficará bem.

Ele parou esperando uma resposta. Em meio a tantas revelações eu não soube o que falar.
- Não vá - foi a única coisa que pude dizer ao sentir meu coração rachando ao meio.

Capitulo 24

"As vezes a vida nos faz tomar escolhas totalmente diferentes de nossas vontades. Somos submissos a vidas vazias e sem noção alguma de onde irá acabar.
Em um leito de hospital ou em uma esquina qualquer.
As vezes temos que nos prender a fantasia de uma vida diferente.
Mesmo quando casamentos já foram realizados e vidas afastadas.
Mesmo quando não há como fugir do que sentimos ou dos destinos traçados.
Pior ainda é se o amor está envolvido, porque quando há amor, a palavra desistir não existe.
Se a decisão é correr atrás.
Se prepare, pois a jornada é grande e as decepções mais ainda." °
Levei parte da noite esperando o sono chegar.
Posso sentir a cama vazia ao meu lado e a noite fria lá fora. Suspiro pela vigésima vez.
Luan chegará pela manhã, assim como a realidade. Meus olhos lacrimeja quando eu penso na minha mãe enquanto o sono não vem.
°
"Dois anos se passaram desde que meu padrasto me trouxe de volta para casa. Ele nunca mais me deu resposta alguma para minhas perguntas sobre minha mãe. Um dia depois da minha fuga, fui levada para a casa da meia irmã do meu padrasto, Lolla. Vivi lá por longos dois anos até o contrato validar. Eu vi toda a minha vida ser decidida em um papel e eu não pude testemunhar contra, fui oferecida por uma dívida de jogo. Entre os dezesseis e dezoito anos, Lolla foi a única pessoa a me dar realmente algum tipo de carinho. Ela sentia muito por meu futuro já estar comprometido.
- Você deve estar pensando que eu sou um monstro como meu irmão, mas não sou. Eu sinto muito por você, de verdade. Eu nunca pensei que pudesse fazer algo assim - ela suspirou - Ele sempre foi assim, a ovelha negra. Só ama uma pessoa na vida, mas isso não vem ao caso.
Suas palavras se tornaram vivas em minha mente. Lolla cumpriu um papel de mãe enquanto eu estive sozinha. Foi por ela que comecei a me dedicar aos livros, na verdade eu sempre quis. Porém desanimava e desistia. O dia do meu casamento se aproximava e Lolla viajou para a América do Sul. Me lembro de suas últimas palavras.
- Boa sorte menina, eu desejo sinceramente que você fique bem - ela levantou meu rosto e enxugou uma lágrima que teimou em cair - Esse ainda não é o fim".


Capitulo 25


Abri lentamente os olhos tentando me adaptar com a claridade do quarto.
- Bom dia senhora - Sony disse enquanto abria a janela.
Sorri para ela em resposta. Quando cheguei ao banheiro, o espelho me saudou com um "você está terrível".
Fiz minha higiene matinal e prendi o cabelo em um coque no alto da cabeça e tomei um banho rápido. Deixo o banheiro e me dirijo ao closet, levo um tempo escolhendo qual roupa colocar. Optei por um vestido azul, de certa forma curto e rodado, com duas faixas brancas em sua extremidade deixando minha pele a mostra entre elas.
Não estou acostumada a usar vestidos desse tipo. Os vestidos do meu cotidiano costumam ser grandes, pesados e exuberantes.
Volto a me olhar no espelho, só que agora, da penteadeira, e ele parece me dizer "você está linda". Me perco no tempo. Me perco na voz da minha mãe e no desejo de voltar atrás. Ela se orgulharia de mim? Ficaria feliz com a filha que agora jaz o semblante no espelho? Ou desejaria ter de volta a doce menina que um dia pensei ser?
Eu ainda me sinto tão vazia, assim como há dois anos atrás me senti quando fugi. Eu tinha medo da palavra e da idéia de casamento. Confesso que ainda tenho. Casamento para mim tinha que ser por amor. E se fosse por esse quesito, essa união que convivo pode ser chamada de qualquer coisa menos casamento.
Ouço uma batida na porta e logo vejo Luan pelo espelho. Enfim chegou da viagem. Ele faz um sinal para Sony e ela sai do quarto em passos lentos.
Ele prende meu olhar ao dele através do espelho. Minha respiração está tão descompassada que poderia embaçar todos os espelhos e vidros do quarto. Ele de certa forma parece diferente do Luan que mal me olhava e que se eu tentasse puxar conversa virava um monólogo.
Luan passou por mim, pegou uma roupa no fim do closet e se trancou no banheiro.
Quando a porta voltou a se abrir, minutos depois, ele estava arrumado. O cabelo ainda escorrendo água do chuveiro e umedecendo brevemente sua blusa. A calça jeans preta deu destaque a seus olhos e cabelos escuros. Seu perfume invadiu todo o quarto quando me dei conta de que o estava encarando por tempo demais.
Voltei a prestar atenção nos meus utensílios na penteadeira.


(Continua...)


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